Do Sonho de 25 Junho à Realidade de Hoje: Desafios do Combate à Corrupção

Há cinquenta anos, no Estádio da Machava, Samora Machel proclamava a independência de Moçambique numa noite que prometia um futuro risonho. Era 25 de junho de 1975, e milhares de moçambicanos celebravam não apenas o fim do colonialismo, mas o nascimento de uma sociedade nova, justa e igualitária. 

O escritor Mia Couto, tinha na altura 19 anos, e estava entre essa multidão eufórica que acreditava poder “mudar o mundo e redistribuir felicidade” no tempo de uma geração.

Trinta anos depois, em 2005, Mia Couto escreveu um texto que me marcou e que cito com frequência. O título desse artigo é “Moçambique – 30 anos de Independência: no passado, o futuro era melhor?”, onde o escritor olhava para trás com uma lucidez melancólica.

A sua reflexão tocava numa ferida que permanece aberta: a distância entre os sonhos de 1975 e a realidade que se instalou.

Hoje, duas décadas após essa reflexão, a pergunta mantém-se dolorosamente actual.

Mia Couto identificou com precisão cirúrgica uma das raízes do nosso mal-estar colectivo: “o maior desastre de África não é ser pobre mas ter sido empobrecida pela aliança entre a mão exploradora de fora e a mão conivente de dentro”. Esta “mão conivente” é da nossa inteira responsabilidade, e alimentou décadas de dependência, e, inevitavelmente, criou um terreno fértil para a corrupção.

“Há toda uma geração de quadros que já raciocina em função do que e a quem se vai pedir”, antecipando uma cultura de dependência que corrói a essência do espírito do 25 de junho.

Nestes últimos vinte anos o que mudou? A resposta é desconfortável: muito pouco. Aliás, a corrupção não só persistiu como se tornou mais sofisticada, infiltrando-se em todos os níveis da sociedade moçambicana. Dos grandes esquemas que fazem manchetes internacionais aos pequenos subornos do quotidiano, criou-se um sistema que normaliza a desonestidade e pune a integridade.

A realidade é dura. O povo está cansado — cansado de promessas vazias, de injustiças repetidas, de ver a esperança adiada geração após geração. Vivemos numa cultura onde a corrupção se tornou um hábito. A indiferença e a apatia instalaram-se como mecanismos de defesa perante uma realidade que parece imutável. Esta apatia, contudo, é precisamente o terreno mais adubado para que a corrupção cresça e se reproduza. Quando deixamos de acreditar que a mudança é possível, estamos a entregar o país aos que da corrupção se aproveitam.

A corrupção é mais do que um problema económico ou administrativo – é um cancro que corrói a crença e a esperança do cidadão na democracia. Destrói a confiança nas instituições, perpetua a desigualdade e mata a esperança de que o mérito possa triunfar sobre o favor. Quando um jovem vê que o sucesso não depende do seu esforço mas das suas ligações, quando uma empresa sabe que não vencerá um concurso público pelo valor da sua proposta mas pelo valor de uma comissão, o tecido social desfaz-se.

Mas se a corrupção é um cancro, também temos a nossa quimioterapia: a integridade, a transparência e a responsabilização. Como qualquer tratamento oncológico, será doloroso, será incómodo, exigirá persistência e sacrifício. Mas é o único caminho para curar este mal que nos consome.

Peter Eigen, fundador da Transparency International, deixou-nos uma mensagem simples mas poderosa: “As pessoas devem estar conscientes de que podem mudar um sistema corrupto.” É difícil acreditar quando estamos imersos na frustração quotidiana, mas se não acreditarmos que é possível combater a corrupção, já perdemos antes de começarmos.

Felizmente, existem entre nós aqueles que ainda acreditam. São poucos, mas são reais. Jornalistas que investigam apesar das ameaças, funcionários públicos que recusam subornos apesar da pressão, empresários que competem de forma justa apesar da desvantagem, cidadãos que denunciam irregularidades apesar da indiferença. Estes poucos podem contagiar o todo. São estes os verdadeiros catalizadores da mudança que Moçambique precisa.

A luta contra a corrupção não será ganha num dia, nem num mandato, nem numa geração. Será uma batalha longa, travada um passo de cada vez, uma denúncia de cada vez, uma recusa de cada vez. Vai demorar? Vai. Vai ser difícil? Vai. Mas só assim podemos recuperar o país que todos os Moçambicanos sonharam, através da voz de Samora Machel, naquela noite de junho.

A integridade, a transparência e a luta contra a corrupção têm de deixar de ser slogans políticos para se tornarem valores fundamentais da nossa cultura. Precisam de fazer parte da educação dos nossos filhos, das nossas conversas familiares, dos nossos critérios de escolha. Quando uma criança crescer a saber que o normal é recusar um suborno, quando um jovem souber que pode denunciar uma irregularidade sem medo, quando um adulto entender que a sua integridade vale mais que qualquer vantagem, estaremos a plantar as sementes de um país diferente.

Cinquenta anos depois da independência, não podemos permitir que a desilusão seja mais forte do que a esperança. O futuro proclamado naquela noite de 1975 ainda é possível, mas exige de cada um de nós uma escolha diária: ser parte do problema ou parte da solução.

Unidos somos mais fortes. A batalha contra a corrupção é a batalha pela alma de Moçambique. E essa batalha deve ser travada com integridade, determinação e convicção.

Um país melhor não é uma utopia distante – é um projeto colectivo que começa hoje, comigo, contigo, connosco.

Nota:

Já que estamos a falar de transparência não poderia deixar de referir que este artigo foi escrito com o apoio de inteligência artificial, que ajudou na estruturação e desenvolvimento das ideias e opiniões apresentadas pelo autor. O texto foi também, posteriormente, revisto e editado por humanos. 

 

João Graça
Estratéga de Comunicação do Programa Íntegra

Fundador Anima Estúdio Criativo